Brasil monta fábrica de remédios em Moçambique

Fachada do prédio utilizado para abrigar a fábrica de remédios

O presidente Lula faz uma visita de dois dias a Moçambique, a última a um país africano durante seus oito anos de governo. Em Maputo o presidente irá inaugurar uma fábrica de medicamentos para tratamento do HIV, um dos maiores e mais ousados projetos do governo brasileiro na África.

Com uma verba de 13,6 milhões de reais aprovada pelo Congresso nacional para a compra de equipamentos e transferência de tecnologia e um gasto adicional de 600 mil com um estudo de viabilidade econômica, o projeto da fábrica pretende expandir a experiência brasileira de produção de medicamentos contra a Aids.

Essa será a primeira fábrica pública a produzir medicamentos para o tratamento do HIV na África, o continente mais afetado pelo vírus e onde o acesso ao tratamento é difícil e dependente de doações internacionais. Moçambique é um dos países com maior incidência de HIV do mundo - 13,1% das mulheres adultas e 9,2% dos homens adultos possuem o vírus, totalizando 2,4 milhões de pessoas infectadas. No Brasil, calcula-se que 630 mil pessoas são soropositivas, menos de 1% da população.

Serão produzidos, inicialmente, 21 medicamentos, entre eles cinco antirretrovirais, como são chamados os medicamentos usados para o tratamento da Aids. O registro dos medicamentos foi doado por Farmanguinhos, unidade de fabricação de medicamentos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

A capacidade prevista instalada é de cerca de 250 milhões de comprimidos de antirretrovirais e de 150 milhões de comprimidos de medicamento para atenção básica, como diclofenaco de potássio (anti-inflamatório). Estima-se que a fábrica começará a operar no no final do ano que vem, embalando os medicamentos. A próxima etapa será de produção.

Além do registro dos medicamentos, o Brasil doou duas linhas de produção, uma de antirretrovirais e outra capaz de produzir medicamentos diversos. O maquinário já foi encomendado e deve chegar ao país no primeiro semestre de 2011. Já Moçambique ficou responsável pelo prédio onde será montada a fábrica e pelo custeio e manutenção da Sociedade Moçambicana de Medicamentos, empresa que tocará a fábrica.

O Brasil fabrica remédios antirretrovirais desde 1993. O acesso universal e gratuito aos medicamentos é uma política prioritária desde 1996 e calcula-se que cerca de 200 mil pessoas estejam sob tratamento. Já em Moçambique, o tratamento antirretroviral começou apenas em 2004, quando seis mil pessoas passaram a receber o medicamento. Hoje, 200 mil pessoas são tratadas, o que corresponde a menos de um terço das necessidades e a cerca de 10% do total de soropositivos do país.

Moçambique é completamente dependente da ajuda internacional para combater a epidemia. Por isso, os programas de saúde pública na área de HIV são vulneráveis a cortes no financiamento. Em maio deste ano, a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) alertou para a redução dos fundos para tratamento do HIV na África, inclusive em Moçambique. Além de impedir que novos pacientes fossem tratados, um corte nos fundos poderia forçar as pessoas que já recebem tratamento a interrompê-lo. Mas quem começa a tomar o medicamento não pode parar, precisa continuar até o final da vida.

A moçambicana Florência Tamelle, 33, viu a irmã morrer por causa do HIV. Depois disso, decidiu se informar sobre a causa da morte da irmã, fez o teste e descobriu que também tinha o vírus. Hoje, Florência trabalha para o MSF dando orientação para grávidas soropositivas.

“Se cortam o financiamento [para os medicamentos antirretrovirais] e me dizem que não tem mais medicamento para mim, eu vou morrer! Vou criar uma resistência no vírus. Gravíssimo! Isso não pode acontecer. O nosso país não tem capacidades financeiras para custear as despesas. Estamos a viver num país que está no caminho do subdesenvolvimento, ainda não é desenvolvido. Se tivesse uma fábrica de antirretrovirais aqui, seria muito bom”, afirmou Florência.

(Com informações do Opera Mundi. Texto e foto de Amanda Rossi)

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