Creedence na veia é muito bom!



Foi uma experiência fantástica, daquelas de volta ao passado, com direito a som e imagem. Na noite de 14 de novembro, fui buscar o presente de aniversário que havia recebido dos meus mais íntimos. Ao lado da minha esposa, fui a Floripa, para ver um show de retorno ao passado.

Dentro do Floripa Music Hall um filme da minha vida passou diante de mim; da minha e da vida de todos e todas que foram ao Floripa. E olha que havia ali umas dez mil pessoas. Muitos jovens, mas o que mais se via eram cabelos grisalhos, brancos ou ausentes. Gente buscando um revival. E o tivemos de prato cheio.

No primeiro momento, um documentário montado pela banda Dasantiga, com todas aquelas imagens que estão guardadas porém muito bem vivas no fundo das nossas almas, como milhões de estampas indeléveis e reveladoras. Imagens que construíram nosso caráter, nosso comportamento; moldaram tudo o que somos, como que misturado ao barro de que fomos formados.

Estavam ali os Beatles, Antônio Britto anunciando, solene, a morte de Tancredo, o casamento de Charles e Diana, o nascimento do primeiro bebê de proveta, o lançamento do Saturno V e "um pequeno passo para um homem, porém um grande passo para a humanidade". Não podiam faltar ali as aberturas de Rin-Tin-Tim, de Jornada nas Estrelas, de Zorro (o bonachão sargento Garcia estava ali, fresquinho como na minha memória, sem faltar um único fio da barba mal-feita!).

Não faltaram nem as cenas da repressão da ditadura à livre-manifestação, um velho selo da Censura Federal, cenas de Irmãos Coragem, do programa Jovem Guarda e muita, muita velharia. Também marcaram presença os múltiplos rostos esculpidos na face de Michael Jackson, ao som de "Beat it".

Coisas que fazem o paranho das nossas almas soltar-se euforicamente. Tudo isso, acompanhado por um DJ do perú, que mandava muito bem toda aquela trilha sonora tão visceral e intransferível, que ainda encanta as novas gerações como se de hoje fossem.

Enquanto esperávamos, animados e bombando adrenalina para dentro do peito, o relógio passava das 23 horas, quando o palco do Floripa apareceu sob uma tênue luz azulada. Aos poucos alguém movia uma guitarra aqui, um microfone ali, um fio acolá. A plateia alvoroçou-se cheia de fome de som eterno.

Num rompante, um senhor (desculpe... hehe) grande, com aquelas camisetas cavadas, mostrava braços enormes, tatuados e uma guitarra na mão. Ao saudar a platéia, a conhecida voz rouca e aguda já mostrava o rumo da prosa. Começava um show antológico, do Creedence Clearwater Revisited, uma banda que surgiu em torno do extinto Creedence Clearwater e dois honrosos sobreviventes do grupo. “Have you ever seen the rain...”, lembra? E por aí foi.

Admito que hoje em dia as platéias não vibram mais como antigamente. Ou melhor, como uma platéia com milhares de homens grisalhos e mulheres remoçadas com tudo que tem direito. Pois aquela platéia suportou heroicamente toda aquela overdose de passado. E o Creedence está tão empolgado com as suas platéias de grisalhos que, arrastando multidões por onde passa, já arriscou uma nova carreira de sucesso.

Faz tempo que não nos divertimos tanto. Foi um presente esplêndido. Valeu a pena chegar aos 57 para viver isso.

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