Uma sombra se levanta sobre nós



A seção Pernambuco da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) entrou ontem com uma representação criminal na Justiça de São Paulo contra a onda de ataques aos nordestinos divulgada por meio do Twitter após a eleição de Dilma. Tudo começou no domingo à noite, assim que a vitória de Dilma estava definida, e usuários do twitter começaram a postar mensagens ofensivas aos nordestinos, relacionando o resultado à boa votação de Dilma no Nordeste. Esta afirmação, na verdade, é falsa, porque Dilma teria ganho as eleições sem os votos do Nordeste. Os votos das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste somaram 33,2 nilhões de votos para Dilma contra 32,9 milhões para Serra.

A representação da OAB-PE é contra a estudante de Direito Mayara Petruso, de São Paulo, uma das responsáveis pelo início dos ataques. Segundo o presidente da OAB-PE, Henrique Mariano, Mayara deverá responder por crime de racismo (pena de dois a cinco anos de prisão, mais multa) e incitação pública de prática de crime (cuja pena é detenção de três a seis meses, ou multa), no caso, homicídio.

Algumas das mensagens postadas pela universitária, com frases como: “Nordestino não é gente. Faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!”, estão no vídeo acima. “São mensagens absolutamente preconceituosas. Além disso, é inadmissível que uma estudante de Direito tenha atitudes contrárias à função social da sua profissão. Como alguém com esse comportamento vai se tornar um profissional que precisa defender a Justiça e os direitos humanos?”, diz Mariano.

Em julho deste ano, a seção pernambucana da Ordem já havia prestado queixa à Polícia Federal contra pelo menos dez usuários do Twitter, por mensagens ofensivas aos nordestinos após as enchentes na região. “Essas redes sociais são meios de comunicação de alcance nacional, e crimes que ocorram nelas são de ordem federal. São ofensas que atingem a todos os nordestinos, existe um direito difuso aí sendo desrespeitado” completa Mariano, para quem o nível agressivo da campanha pela internet este ano, apesar de não justificar os ataques, pode tê-los estimulado.

No domingo, usuários do Twitter insatisfeitos com a vitória de Dilma começaram a postar frases como “Tinham que separar o Nordeste e os bolsas vadio do Brasil” e “Construindo câmara de gás no Nordeste matando geral”. Como reação, outros usuários passaram a gerar uma onda de mensagens com “#orgulhodesernordestino”, hashtag que ficou entre os primeiros lugares no ranking mundial de temas mais citados no Twitter.

O problema maior, entretanto, está na semente que foi plantada. Um sentimento generalizado de ódio contra os movimentos de esquerda e de repulsa aos humildes vem crescendo assustadoramente na sociedade brasileira, coisa que não havia antes – pelo menos não de forma tão clara. Repetem-se a rodo, por exemplo, casos de bulling em escolas contra crianças que declararam apoio a Dilma. Há outros casos de crianças que não têm o menor pudor em revelar que são estimulados pelos pais e agredir Dilma com joguinhos de computador, que chutam o traseiro da presidenta eleita e outras atitudes ostensivas.

Os movimentos sociais também estão cada vez mais e de modo mais explícito na lista das instituições odiadas. Os ataques de ódio chegaram a tal ponto que a própria presidente eleita teve que dizer explicitamente que o MST não é caso de polícia mas de política pública, por exemplo. O que mais assusta, entretanto, é que há cada vez mais ouvidos surdos a qualquer argumento que defenda os direitos dessa gente. O grupo dos que simplesmente se negam a pensar sobre a questão cresce a olhos vistos.

Enquanto olhamos com pena para Obama e vemos, assustados, que democratas e republicanos estão num embate de guinadas fortes, esquecemos que esta briga nos EUA é antiga e está institucionalizada. Ela por lá tem as suas regras bem claras e os dois grupos se respeitam, apesar de tudo.

Aqui, temos uma crescente parcela da sociedade que começa a flertar perigosamente com pensamentos fascistas, que podem construir um futuro sombrio. Pior que isso, há uma sementinha sendo diligentemente plantada em cada coraçãozinho infantil, no sentido de odiar o outro lado acima de todas as coisas. Não estamos sabendo ser promotores de paz e justiça e, sem perceber, plantamos ódio, preconceito, egoísmo exacerbado e xenofobia no mais amplo sentido.

E, cá prá nós, está certo que a OAB de Pernambuco tente frear esses jovens por meio da lei. Mas não tenho tanta certeza assim de que isso vai trazer o resultado esperado. Na verdade, estamos forçando esta gente a manter o seu ódio entre quatro paredes. Mas ele continuará por lá, pronto para revelar-se à luz do dia na primeira oportunidade e, pior, ainda mais forte do que antes. Por isso mesmo, urge conclamar todas as forças da sociedade que acreditam nos direitos humanos a iniciar um trabalho gigantesco de educação e divulgação dos ideais de igualdade, paz e justiça entre nós.

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