História real dos turcos na Alemanha

Operários turcos na mina Neu Monopol, em Unna-Alemanha

Tem muita gente que, sem conhecer o fator que originou a realidade em que vive, comete injustiças e equívocos em seu julgamento sobre pessoas e situações. Um caso típico desses é a realidade crescente de discriminação e xenofobia na Europa de hoje, especificamente na Alemanha. Muitos pensam, por exemplo, que os turcos promoveram uma verdadeira invasão da Alemanha em busca das benesses do desenvolvimento e da riqueza daquele país. Por isso, hoje são condenados por reinvindicarem espaço, direitos e mais igualdade nas comunidades em que vivem, muitas vezes já sendo até netos dos imigrantes turcos de outrora e, portanto, cidadãos alemães plenos. São condenados por uma parcela significativa da sociedade alemã, que os julga como invasores.

Para quem não sabe a origem da comunidade turca na Alemanha, tudo começou no dia 30 de outubro de 1961, data a partir da qual foi assinado um “Acordo de Recrutamento” com o governo da Turquia, com o objetivo de trazer um grande número de homens turcos saudáveis e solteiros para trabalharem na Alemanha.

Eles deveriam vir para fazer o “serviço pesado”, aquele que os alemães se negavam a fazer, porque seu poder aquisitivo podia pagar o luxo de “terceirizar” todo tipo de serviço que eles não queriam mais fazer e não fariam de jeito nenhum por pouco dinheiro (trabalhar nas minas de carvão ou na indústria metal-mecânica, por exemplo). Pagavam a passagem, despesas de viagem e um salário que, para os padrões dos trabalhadores que vinham, era muito tentador.

E muitos vieram. Não somente turcos, pois eu tenho alguns amigos pessoais que saíram do sul do Brasil para se inscreverem em programa semelhante de recrutamento. Eram amplamente conhecidos como “Gastarbeiter”, ou “trabalhadores convidados”.

Um dia eles deviam voltar, com a passagem de volta financiada pelos seus patrões alemães. Em muitos casos, entretanto, isso não aconteceu porque era extremamente caro e complicado para esses patrões trocar os seus “Gastarbeiter” a cada dois anos e financiar seu treinamento. Por isso, a obrigatoriedade de voltar após dois anos foi suspensa pelo governo alemão já em 1964, dando maior estabilidade aos “Gastarbeiter”. Com o tempo, eles podiam até trazer as famílias. E alguns foram ficando, ficando e ficando, por conta disso. Hoje têm filhos e netos, legítimos cidadãos alemães com passaporte e tudo, que, em muitos casos, nem mesmo falam mais a língua de seus pais ou avós “Gastarbeiter”.

Dos meus amigos brasileiros, somente um ainda está na Alemanha hoje, aposentado e com netos. Os demais voltaram ao Brasil após alguns anos na Alemanha.

Mas com a comunidade turca isso não aconteceu assim. Eles vieram em massa e, por conta dos custos de reintegração e troca, permaneceram a convite de seus patrões. Hoje, a comunidade turca é o maior grupo de imigrantes no país, com 2,5 milhões de cidadãos, dos quais 700 mil possuem passaporte alemão.

Eles, definitivamente, ajudaram a erguer a Alemanha durante o chamado “Milagre Econômico”, sendo recrutados diretamente em Istambul, por uma agência de empregos especialmente criada para isso. A Alemanha beneficiou-se dos braços desses trabalhadores e a Turquia levou vantagem com o fluxo de capital, através das montanhas de dinheiro que esses trabalhadores remetiam para seus familiares na terra de origem.

Hoje eles são tratados como o maior problema social da Alemanha, e até com certa arrogância por quem outrora usou e abusou de seus braços fortes e saudáveis. O problema é obviamente econômico, porque hoje ocupam postos de trabalho que fazem muita falta para os próprios alemães (e muitos descendentes dos “Gastarbeiter”, que subiram na escala social, também não querem mais fazer o serviço sujo que era feito por seus pais ou avós).

Para desconversar, implicam com a sua religião. Dizem temer uma Europa repleta de mesquitas, mas o que realmente os assusta é ter que repartir com eles o custo da crise que veio por conta do dinheiro gasto na boa vida das décadas passadas...

(Com informações da Deutsche Welle)

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