Dia da África


Quem se move pelo calendário de datas especiais a serem comemoradas, poderia ter a impressão de que hoje é um desses dias que passa em branco. Lembranças idiotas, como o “Dia da Toalha”, ou meio sem noção, como o “Dia do Nerd” estão na lista para hoje. Coisas que deixam passar despercebido que, para o Continente Africano, o dia 25 de maio é o “Dia da África”.

Mas, como este é o continente esquecido, lembrar das toalhas ou dos nerds parece dar algum sentido a um dia que, além de tudo, por aqui é de muita chuva. Afinal, o continente da pobreza, da fome, da AIDS, do deserto e dos conflitos intermináveis, marca-se na memória de muitos de nós apenas como o continente negro e dos animais selvagens.

Exceções talvez sejam para alguns as lembranças evocadas pelo filme animado “Madagascar” ou, para os que ainda têm um pouco de lembrança da última copa do mundo, lembram vagamente de temas como Nelson Mandela e apartheid. De resto, a África é uma ilustre desconhecida para a maioria de nós.

A realidade é que hoje é celebrado o Dia da África, o que em todo o continente é o mesmo que olhar com muita esperança para perspectivas de desenvolvimento, que finalmente se anunciam plausíveis em alguns países, como Angola e Moçambique. É uma perspectiva bonita em meio ao acúmulo de problemas em todo o continente, com destaque para uma desigual distribuição das riquezas e a persistência de doenças que afetam populações inteiras, como a AIDS, a desnutrição e a malária.

O motivo para a comemoração continental africana, neste dia 25 de maio, é a criação da Organização para a Unidade Africana no ano de 1963, um passo decisivo para a criação em 1992 da atual União Africana. Trata-se de uma entidade integrada por 53 países, empenhada na busca da unidade continental e da paz, e que se esforça pelo crescimento das economias da região, pela integração e pelo acesso das populações a serviços essenciais.

Todo o seu empenho, entretanto, não é suficiente sem substancial ajuda externa. Há severas deficiências em áreas como saúde, educação, emprego, água tratada, além de problemas com infra-estrutura e, sobretudo, crescentes desigualdades sociais.

Uma preocupação específica refere-se a milhares de mulheres e crianças na empobrecida África subsaariana, atingidos pela AIDS e que morrem a cada ano como vítimas da desnutrição, da malária e da tuberculose. O admirável crescimento econômico que é possível registrar em todo o continente também aumenta a marginalização de crescentes camadas da sociedade.

Na outra ponta, há 200 milhões de pessoas no continente padecendo severas condições de fome e subnutrição, o que é uma vergonha para toda a humanidade, tão rica, tão obesa e tão pronta a desperdiçar alimentos.

Somente por isso, cabe uma reflexão profunda neste Dia da África. Nossos irmãos africanos passam fome. Isso muda o meu comportamento na hora das minhas compras no supermercado? Isso altera minha postura diante da porta aberta da geladeira?

É um dia também para falar sobre paz, tão limitada em conflitos africanos como os que ocorrem em países como Madagascar, Guiné Bissau e Mali, onde ocorreram golpes de estado, ou em guerras fratricidas como a que dizima os dois Sudões.

Está certo que a África deve encontrar suas próprias soluções para os seus problemas. Mas ajudas importantes, como as que vêm da brasileira EMBRAPA ou da fábrica de remédios contra o HIV em Moçambique erguida pelo governo brasileiro são importantíssimas. E deveriam despertar o nosso orgulho solidário e o nosso total apoio.

O que não pode é continuar dormindo em berço esplêndido, enquanto o continente de onde vem metade da herança genética dos brasileiros e brasileiras segue com tantos problemas.

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