segunda-feira, 28 de maio de 2012

O velhinho do megafone


Estamos às portas da Rio+20, uma conferência com pose de mudar o mundo, melhorando a relação entre a humanidade e o planeta em que vive.

Mas o momento não é adequado. Eu diria até que é extremamente impróprio para que qualquer coisa decisiva aconteça no encontro sobre sustentabilidade, no mês que vem.

Aliás, o que é sustentabilidade? Está aí um conceito elástico como borracha. Ele se adapta a praticamente tudo. Qualquer ideologia cabe no pacote. O simples fato de falar de uma “economia sustentável” já demonstra o tamanho do balaio de gatos que é o conceito. Os governos dizem fazer tudo por mais sustentabilidade. O Brasil quer posar de defensor da Amazônia enquanto incrementa as prospecções do Pré-Sal. Empresas como a Monsanto, a Coca Cola, a Petrobrás, a Vale do Rio Doce ou a Souza Cruz afirmam categoricamente sua ação sustentável. Além de muita hipocrisia, tal avaliação representa um imenso perigo para o futuro da Rio+20.

Por quê? A crise internacional dá imensa vantagem às empresas. O mundo precisa de empregos, de uma economia que volte a girar e saia do atoleiro em que se meteu. Vão fazer isso cuidando do meio ambiente? Não me parece ser este o ponto central no mundo, para onde quer que se mire.

A meta principal é a volta do crescimento a qualquer custo. Todos olham para a China, a Índia e até o Brasil, porque são economias em expansão, mais seguras para aplicar o capital, portanto. Ninguém mira para a Grécia, a Itália ou a Espanha, que estão parados e com a luz de ré acesa.

Fazer uma cúpula sobre sustentabilidade, num cenário desfavorável desses, me lembra aquele velhinho da Praça Doutor Blumenau, que, com um megafone na mão, vocifera mensagens evangélicas que ninguém quer ouvir. A Rio+20 será mais um evento para inglês ver, porque não terá poder decisório algum com relação ao futuro da humanidade ou do próprio planeta.

Mas isso significa que devemos desistir, nos calar, recolher o discurso e ir para casa?

Definitivamente, não! Mesmo considerando que aquele velhinho fica passando por idiota naquela praça, em Blumenau, há que se admirar a sua insistência. Mesmo sozinho, ele e aquele megafone, o velhinho está convencido que tem uma missão a desempenhar. E a levará até o fim, mesmo sem platéia alguma. E eu pretendo desempenhar o mesmo papel, mesmo num mundo de cegos e surdos. Sei que tenho muitos companheiros e companheiras de loucura. Mesmo com o pé no nosso pescoço, não vamos nos render.

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