O mago da não-violência ativa


Toda essa “ola” de protestos que varre o Oriente Médio, na busca pelo fim da tirania de alguns dos mais emblemáticos ditadores da atualidade, traz de volta ao cenário dos debates políticos a velha idéia do uso dos métodos da não-violência ativa como forma de combater a opressão. A maioria das pessoas ao falar em não-violência logo lembra de Mahatma Gandhi e Martin Luther King. As pessoas envolvidas com lutas populares também vão lembrar de Henry David Thoreau, ideólogo da desobediência civil. Aqui no Brasil a gente logo lembra de Chico Mendes. São verdadeiros ícones desta luta, que protesta e procura concretizar suas conquistas sem apelar para a violência, apesar de fazer amplo uso de protestos e ações coletivas.

A “ola” popular do norte da África, onde manifestantes já derrubaram as ditaduras de Zine Ben Ali e Hosni Mubarak, seguiram os ensinamentos do ativista e cientista político americano Gene Sharp (na foto acima). Ele escreveu um livrinho de apenas 93 páginas com o título “Da Ditadura à Democracia – um guia conceitual para a libertação”, que vem influenciando movimento de libertação ao redor do planeta. Por exemplo, foi o livro de cabeceira dos dissidentes na Bósnia, na Estônia, no Zimbábue, e agora na Tunísia e no Egito. Segundo Dália Ziada, blogueiro egípcio e ativista pró-democracia, as ideias de Sharp sobre atacar as fraquezas dos ditadores se tornou popular no movimento que derrubou Mubarak.

O livrinho, infelizmente, ainda não foi traduzido para o português. Talvez seja um bom sintoma da pouca importância que se dá na sociedade brazuca ao tema justiça e não-violência. Com exceção dos movimentos populares, este não é um assunto corriqueiro nem curricular na educação brasileira, trazendo como resultado direto a nossa falta de formação para a cidadania. Mas você poderá ler este manual de luta popular em espanhol, baixando-o no seguinte endereço: http://www.aeinstein.org/organizations/org/DelaDict-1.pdf.

Sharp inspirou seu trabalho nos ensinamentos de Gandhi. Seus textos falam de desobediência civil, boicotes econômicos e luta por direitos civis. De acordo com ele, a não-violência é a melhor arma contra uma ditadura. “Se você luta com violência, está lutando com a melhor arma do seu inimigo”, diz. “Será um herói corajoso e morto”.

Na visão de Sharp, até as ditaduras são vulneráveis à oposição não violenta das massas. Segundo ele, no Oriente Médio o gênio saiu da garrafa: as pessoas são capazes de alcançar a própria liberdade em circunstâncias difíceis, e depois não há como colocar o segredo de volta na garrafa.

Agora no caso da Líbia, em que a Europa e os EUA já começam a mobilizar tropas para fazer seu tradicional apelo às armas e a violência, Sharp é taxativo: “eles devem ficar de fora. Possivelmente eles não vão entender o que está acontecendo lá. E as declarações de Washington demonstram que ninguém no governo compreende de que tipo de luta se trata. E não importa o que digam, o que quer que decidam fazer: será no próprio interesse europeu ou norte-americano, e não no interesse da população da Tunísia ou da Líbia”.

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