Um tapa na cara das tradições

Stammtisch na véspera da Semana Santa, uma afronta às nossas mais caras tradições.

Perfeito! Mais uma vez, Blumenau se supera. Está marcada para o sábado 16 de abril a maior farra gastronômica e alcoólica germânica de que se tem notícia nas Américas; o Stammtisch de Blumenau. Nada contra nem a favor do famoso Stammtisch. Afinal, ele junta uma multidão inigualável ao longo da Rua XV para cultivar uma tradição absurda, que nem na Alemanha se pratica e que se vende como se tradição fosse. “Fress- und Sauftag” (dia de comilança e bebedeira) devia ser o nome disso que se faz por aqui.

O Stammtisch dos nossos antepassados era bem outra coisa. Era um lugar de encontro de amigos, em torno de uma mesa cativa, num ambiente público. Para comer e beber, sim. Mas também para debater e conversar sobre temas polêmicos ou assuntos da urbe. Eram grupos de pessoas com interesses temáticos semelhantes, que se encontravam regularmente para trocar ideias. Nesse sentido, um motoclube é uma espécie de Stammtisch, por exemplo. Por isso, seria bem mais interessante criar um Stammtisch para conversar a sério sobre tradições germânicas. Iriam ter o que falar...

Até Martim Lutero participou de um Stammtisch assim, onde se registraram muitas das suas famosas “Tischreden” (Conversas de mesa). A quantidade de coisas fundamentais que ele disse nessas conversas ao redor de uma mesa mostra que isso não seria possível no moderno “Stammtisch” de Blumenau, porque até as onze horas da manhã está todo mundo no maior “mé”.

Ninguém durante o nosso Stammtisch moderninho teria lucidez suficiente para dizer, por exemplo, algo assim: “Eu sustento que as autoridades civis têm a obrigação de forçar o povo a enviar os seus filhos à escola, exatamente como estão prometendo... Se o governo pode obrigar tais cidadãos, quando prestam o serviço militar, a segurar a espada e o rifle, a cavar trincheiras e a cumprir os outros deveres militares em tempo de guerra, tem muitíssimo mais direito de obrigar o povo a mandar os seus filhos à escola, porque neste caso nós estamos lutando contra o demônio...” (Uma das famosas Tischreden de Lutero).

Mas se querem assim, que assim seja. Já não se pode chamar mais nada de tradição germânica por aqui mesmo. Sobrou somente uma miscelânea disforme e confusa, que vende um peixe que nunca existiu, com raras exceções entre os grupos folclóricos que levam tradição a sério. Acho que essa bagunça começou nos anos 1970, quando se permitiu a invenção do enxaimel aparente, aquela lambança estética que afronta a genialidade arquitetônica dos nossos colonizadores.

O que incomoda de verdade é a data! Explico. Sempre foi tradição – isso sim, uma legítima tradição dos imigrantes alemães que fizeram a história do Vale – que durante a Quaresma não há bailes, nem festas ou casamentos. Muitos até se esforçavam para maneirar na mesa e no copo. E quando eu ainda era criança, isso era quase uma unanimidade. Agora, há festas, bailes e casamentos por todo lado. Tem até festa de igreja no tempo da Quaresma...

Agora, um Stammtisch na véspera do Domingo de Ramos, início oficial da Semana Santa, em que nos deveríamos preparar para, contritos, nos sensibilizarmos com o sofrimento e a morte de Cristo, convenhamos, é uma bela patada na cara de todas as nossas mais belas tradições. Durma-se com um barulho desses!

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