Quaresma, tempo de abstinência

O ator Charlie Sheen lança fora a sua vida, enquanto o pai tenta desesperadamente salvá-lo.

Nesta quarta-feira de cinzas inicia o período da Quaresma, um período do ano destinado à abstinência e à penitência. Está aí algo que está fora de moda. Ninguém mais quer abster-se de nada. Vivemos na época do gozo pleno, do consumo sem limites, do prazer a qualquer custo. A abstinência não tem espaço.

Hoje, no princípio da Quaresma, vem à minha mente a imagem de algumas pessoas que viveram a vida intensamente, sem qualquer controle, sem abrir mão de nada, de absolutamente nenhum prazer. Poder-se-ia citar uma lista enorme de nomes. Mas o que me vem à mente como o exemplo mais forte do momento, é o do ator Charlie Sheen. Famoso e premiado, já habituado ao mundo da fama como filho de ator (seu pai é o ator Martin Sheen), Charlie perdeu de tal maneira o controle sobre a sua vida depois de envolver-se com diversos tipos de drogas que está entrando num buraco sem fundo. Ontem mesmo (8 de março), ele foi demitido da série de TV americana Two and a Half Men. Seu pai, em desespero, tenta resgatar o filho também famoso do buraco em que se meteu, mas é uma luta extremamente difícil e de muito sofrimento.

Esta não é uma imagem rara. Ela se repete todos os dias, nos quatro cantos do mundo. Pais, professores e amigos se desesperam a cada revelação de dependência de drogas, álcool (a droga aceita e a mais maldita de todas) e outros comportamentos qualificados como “desvios”. A humanidade perdeu muitos jovens talentosos para as drogas. Cazuza, ele próprio uma vítima delas, cantou: “meus heróis morreram de overdose”.

A canção de Cazuza também revela o principal motivo da maioria das dependências: falta sentido na vida das pessoas. “Ideologia! Eu quero uma pra viver!”, é seu grito desesperado. Por falta de sentido, nos tornamos dependentes de elementos químicos, manias, costumes ou atitudes que têm efeito passageiro. É efêmera a felicidade que produzem. Depois dela vem um imenso vazio e a sensação de necessitar uma nova dose, ainda maior, para fazer retornar a sensação de prazer que se experimentou.

Este princípio é sempre o mesmo, tanto faz qual é a dependência que nos prende. A dependência das drogas é a mais conhecida; mesmo assim esse conhecimento não evita que as pessoas continuem experimentando, sempre acreditando poder “largar na hora que quiser”. Mas, também nos tornamos completamente dependentes da internet, de jogos eletrônicos, de comida, de álcool e cigarro, ou mesmo do incontrolável desejo de consumir coisas novas.

Se o princípio é o mesmo, também a razão que o provoca é sempre a mesma. Falta sentido na vida das pessoas. O desejo pela sensação de prazer e felicidade é a busca por preencher o vazio que está na alma. Cada vez mais pessoas passam toda a sua vida correndo atrás do prazer momentâneo e um número cada vez maior delas cai no buraco sem fim da depressão, tornando-se dependente de antidepressivos.

Essa corrida maluca começa já na infância, quando a criança se atira no chão do supermercado e faz o maior escândalo com o intuito de arrancar dos pais a satisfação do seu desejo de consumo. Na adolescência, passa pela troca de celular três vezes ao ano, pelos modismos passageiros, pelos costumes tribais que mudam a cada estação do ano e pelo individualismo crescente e alienante. Quer solo mais fértil para plantar o desejo pelas fortes emoções de um cigarro de maconha ou de uma carreira de cocaína?

O que nos preenche realmente? Nossa independência está no sentido de vida. Quem não se detém para responder à pergunta mais importante da sua existência, é sério candidato a campeão da corrida maluca. Para que eu estou neste mundo? Qual é minha missão? Qual é o sentido da minha vida?

Em primeiro lugar, devemos nos deixar preencher da vida que vem de Cristo: “Vim para que tenham vida, e vida em abundância”. Ele nos enche o copo até transbordar, justamente para que possamos passar vida adiante, sem medo de que fiquemos no prejuízo. E, passar vida adiante não é outra coisa do que servir. Este é o sentido da nossa vida. Servir. Quem não vive para servir, não serve para viver. Frase batida, mas cheia de razão. Quem coloca sua vida a serviço, preenche-a de sentido.

Em segundo lugar, é preciso que paremos de vez em quando para avaliar nosso grau de dependência. Tenho insistido em que a Quaresma (40 dias antes da Páscoa) e o Advento (quatro semanas antes do Natal) são os períodos ideais para abrir mão de alguma dependência. Isto nos ajuda, porque é uma forma de autodisciplina que enriquece e fortifica o espírito. Faça a experiência. Aproveite a Quaresma para deixar de fumar, de beber cerveja ou de comer chocolate e transforme esta economia financeira e de energia em alguma espécie de serviço voluntário. Você vai entender o que eu estou querendo dizer.

(Parte deste artigo eu publiquei originalmente no Anuário Evangélico de 2006)

Comentários

  1. Rev. Clovis, estimado colega, boa noite!
    Por favor, disponibilize links de compartilhamento de suas publicações para o orkut, facebook, etc.
    Ailton, pr (IELB)

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