Ha muito a fazer pela paz


Quando vejo como tratam a paz, eu não consigo ficar em paz. O que entendemos, quando colocamos esta palavra em nossa boca? Que tipo de imaginário aquece as turbinas do jato da nossa mente quando fazemos essas três letrinhas decolarem do aeroporto da nossa imaginação?

Quando a palavra é evocada como lenitivo para as nossas tribulações pessoais, como vemos? “Deixe-me em paz!”, que conotações desperta em nós? E se eu não deixar você em paz, o que você vai fazer, vai iniciar uma guerra? Em nome da sua paz, você é capaz até de começar um conflito?

É quase sempre assim que começam as guerras: “Deixe-me em paz!” Mas também é quase sempre com essas mesmas palavras que uma vítima agredida tenta livrar-se de seu agressor. É um pedido de socorro, uma ordem gritada por quem não está em posição de dar ordens. É o anúncio desesperado de alguém que diz que estão quebrando a sua tranquilidade, transformando a sua vida num campo de batalha.

Que sentimento desperta a palavra paz em nossas mentes neste dia 22 de maio, quando o Conselho Mundial de Igrejas encerra oficialmente o Decênio para Superar a Violência no nosso mundo? Afora a estúpida paixão da humanidade pelas guerras – sim, porque nesses dez anos (3.652 dias e meio!) nenhum deles houve sem alguma guerra –, o que nos toca ao pronunciar “paz”?

Continuamos elevando a Deus as nossas orações por paz. Queremos paz entre os tantos países em guerra ou vivendo uma guerra fratricida interna. Queremos paz entre as religiões. Queremos paz entre ricos e pobres, grandes e pequenos, fortes e fracos, opressores e oprimidos, governantes e governados, homens e mulheres... Há tantos ambientes em que reina o conflito, a divisão, a diferença, o medo, a perseguição.

A paz se vai especialmente entre nossas quatro paredes, que tudo escondem de todos os olhos e tudo abafam de todos os ouvidos. Sabemos exatamente o que se passa atrás das quatro que nos ocultam do mundo, mas quase nada sabemos sobre as milhares de quatro paredes que escondem as manchas roxas de milhares de pequenos e pequenas, as marcas da violência de subjugados e subjugadas, as marcas no fundo das almas de milhões de abusados e abusadas sexualmente, moralmente, psicologicamente, socialmente... Mal nos damos conta. Mal queremos nos dar conta.

Continuamos pedindo por paz, porque nos negamos a crer que somos incapazes de construir um mundo sem violência, sem ódio, discriminação ou vingança. Continuamos orando por paz, porque nos sentimos motivados por aquele que trouxe paz ao mundo. Todas as guerras movidas em seu nome são uma vergonha. Todo o ódio que gerou a simples pronúncia do seu nome são a prova de que não o entendemos, nem depois de dois mil anos e de milhões de livros sobre o seu pensamento.

Mas a nossa oração não pode nos encontrar em posição introspectiva; nem deve manter nossas mãos inertes e mentes opacas. A paz não cai do céu de onde a pedimos; ela é erguida com muito trabalho, muita conversa, muita ação positiva e proativa. Não basta que oremos por paz; precisamos construí-la e mantê-la. Não basta que oremos para que cesse a violência; precisamos superá-la em nossas relações; extirpá-la de nossas negociações e renega-la em nosso convívio social. Depois de uma década de muito esforço e pouco resultado concreto, o esforço de todos nós deve continuar firme, sem esmorecer, para que a paz finalmente triunfe e o desejo de que espadas se transformem em arados e lanças em podadeiras seja muito mais do que apenas um bonito versículo bíblico.

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