O sangue de Zé e Maria está em nossas mãos


Este emocionante depoimento sobre José Cláudio e Maria do Espírito Santo foi escrito pela bióloga Juliana Machado Ferreira, mestra em Biologia e doutoranda em Genética. O artigo foi publicado ontem, 26 de maio, no jornal paulista Diário do Comércio, no espaço cedido pelo colunista Neil Ferreira. Leia e indigne-se: Até quando vamos tolerar tudo isso?

Majestade é a maior castanheira do lote de José Cláudio Ribeiro da Silva e de sua esposa, Maria do Espírito Santo, em Nova Ipixuna, Pará.

Zé Cláudio, castanheiro desde os sete anos, possuia a sabedoria do povo da floresta, algo que só acreditei que existia quando o conheci.

Até então achava que era mais um clichê.

Em 6 de novembro de 2010, Zé Cláudio deu uma palestra emocionante no TEDxAmazonia, que desde fevereiro de 2011 está online, de graça, para quem quiser assistir (www.tedxamazonia.com.br). Eu não conhecia Zé até então. Seu nome foi sugerido pelo jornalista Felipe Milanez. A palestra de Zé foi emocionante em todos os sentidos.

Em sua sabedoria simples, em sua luta heroica e na previsão de que pagaria com a vida a sua luta pela floresta.

Na noite após a palestra tive a oportunidade de conversar com Zé por 3 horas. Fiquei emocionada com a mansidão de sua fala e com a força de suas palavras. Fiquei encantada com sua clareza em relação à conservação ambiental, e com sua sabedoria inata de que a floresta derrubada e queimada provê recursos apenas uma vez, mas que a floresta em pé provê hoje, amanhã, daqui a anos e anos. Fiquei surpresa com a facilidade com a qual ele expôs a relação direta entre ecossistemas saudáveis e disponibilidade de recursos naturais, de água, a qualidade de vida não apenas do povo da floresta, mas de todos os habitantes, inclusive dos centros urbanos.

Zé Majestade também explicou de forma direta que atividades como a exploração ilegal de madeira apenas são lucrativas devido à boa e velha lei do mercado: se tem alguém querendo comprar, vai ter alguém vendendo. Consumidores nos centros urbanos em geral não se interessam em saber a origem daquela madeira da qual foi feito o produto que estão comprando. Normalmente nós olhamos apenas uma informação, o preço. E o preço é mais alto do que imaginamos.

Zé considerava as árvores suas irmãs. Dizia que ver uma delas sobre o caminhão, indo para uma serraria, era como ver o cortejo fúnebre de seu ente mais querido. Além da sabedoria inata e do coração de ouro, Zé veio ainda com algo mais. Veio ao mundo com uma coragem indestrutível e uma força de vontade inquebrantável.

Essa mistura forjou aquele que para mim e para muitos outros pode ser considerado como o Chico Mendes moderno. Zé tornou-se um defensor ativo da floresta. Fazia questão de denunciar carvoeiros e madeireiros ilegais, principalmente os que insistiam em entrar na reserva extrativista Praia Alta Piranheira e fazer tombar os gigantes da floresta. Levava os fatos à polícia, aos promotores. Semeava verdade e colhia ameaças.

Cada vez mais inimigos brotavam ao seu redor e, naquela noite, Zé disse que apesar das ameaças constantes por parte dos madeireiros, não se calaria. Eu, na minha ingenuidade, disse a ele com um sorriso no rosto que faríamos sua luta voar pelos quatro cantos do mundo através de sua palestra, que seria postada na internet. Disse a ele que seu destino seria diferente do de Chico Mendes, pois atrairíamos atenção à região, que o governo não poderia ignorar a situação, que a comunidade internacional faria pressão para algo ser feito a respeito.

E sua palestra foi ao ar. E foi legendada. E enviamos pelo céu da internet. E escrevemos sobre ele em sites internacionais.

Sete meses depois, na manhã de 24 de Maio de 2011, Zé Majestade e Maria do Espírito Santo foram assassinados em uma emboscada covarde. Mais um gigante da floresta tombou, e naquela manhã, sei que a a castanheira majestade chorou.

Conheci pouco o Zé, mas não consigo parar de pensar em tudo. Meu coração está aos pulos, revejo a palestra e não acredito que perdemos essa criatura incrível. E que "eles" estão ganhando – a corrupção, a ignorância, o tráfico de fauna, armas, drogas, os madeireiros, eles estão ganhando. E Zé e Maria se foram. Tiros de escopeta, orelhas cortadas... os dois ao lado de uma grande árvore. E as castanheiras continuam a ser derrubadas e a soja continua a ser plantada, o gado criado, as matas ciliares sumindo e o carvão queimando. Doi pelo homem e pela mulher que se foram, doi pelos ativistas, pelos educadores, pelas pessoas de bem que eram, doi pelo medo e dor que devem ter sentido, dói por dentro e por fora, dói de revolta e de dor. Dói de indignação, doi de todo o jeito e não cura.

As pessoas continuam comprando produtos sem saber sua procedência e o governo continua ausente, servindo aos interesses do poder e do dinheiro. Todos nós temos o sangue de Zé e Maria em nossas mãos.

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