Nossa sociedade medieval


Então você não pode mais andar na rua abraçado com um outro homem sem ser confundido e, pior, agredido por suspeitarem que você é gay? O que está acontecendo com a nossa cultura ocidental cristã, democrática, livre e afeita ao respeito? O que está acontecendo com a nossa sociedade? Que tipo de fundamentalismo radical e intolerante está se instalando entre nós?

O fato, terrível e que denuncia um rumo assustador das coisas, aconteceu no interior de São Paulo, em São João da Boa Vista. A vítima, que não quer se identificar, é um homem de 42 anos que perdeu parte da sua orelha durante agressões que sofreu por ter sido atacado por um grupo homofóbico que o confundiu com um gay, por estar circulando abraçado com o seu filho. Não quiseram nem ouvir os argumentos. Viram, desconfiaram e partiram para o abate. Cegos e surdos pelo seu preconceito, não pararam um minuto para pensar. Em sua visão torpe, julgaram estar fazendo uma limpa geral.

O STF está muito certo em proteger as minorias, também os homossexuais – mesmo que aqui não tenha obviamente sido o caso. O Congresso está correto em debater e aprovar leis como a lei anti-homofobia, que tanto assusta os pretensos missionários que se julgam cerceados no direito de pregar que o homossexualismo é pecado. Porque, ao proteger as minorias, está livrando a cara de muita gente que sofre as consequências de uma sociedade podre, intolerante, inacreditavelmente medieval.

O que mais assusta, entretanto, não é um ou outro grupo que leva seu preconceito ao ponto de deixar inocentes sem orelha – o que é obviamente inaceitável e um crime previsto no Código Penal brasileiro. O que assusta, de fato, é o quanto gente que pensa como eles está aqui, bem ao nosso lado, fazendo piadinhas idiotas e, no íntimo, concordando com linchamentos, justiça pelas próprias mãos, surras “merecidas”, bullying de todo tipo. O que assusta, é gente transformando a Bíblia num código penal mafioso para condenar a vida dos outros e o seu comportamento. É um caldo social no qual florescem excrescências como a Ku Klux Klan.

Enquanto em nossa sociedade se julgar justificado agredir travestis, prostitutas ou gays pelo simples fato de não aceitar o que são, erros como o de São João da Boa Vista irão se repetir perigosamente e, pior, um dia poderão atingir a nossa própria família ou até a nós mesmos.

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