História comovente e segundas intenções


Aisha é uma jovem afegã de 18 anos, cuja imagem está na capa da revista americana Time desta semana. A imagem revela uma outrora bela mulher, que agora está marcada por toda a vida. Ela teve o nariz e as orelhas decepados por ter fugido de seus sogros, que a maltratavam. Um comandante talibã do vilarejo onde morava a condenou – apesar de suas queixas de que era tratada pela família do marido como escrava – para que outras mulheres não tentassem seguir seu exemplo. Seu cunhado a segurou e seu próprio marido a cortou. Ela hoje vive escondida em um abrigo para mulheres e, com a ajuda de uma organização humanitária da Califórnia, deverá viajar aos EUA para passar por uma cirurgia reparadora.

A foto da capa é acompanhada por uma história forte de como as mulheres afegãs abraçaram as liberdades conquistadas com a queda do Talibã, e como elas temem a volta do regime. Aisha decidiu posar para a foto porque “quer que o mundo veja o efeito que a volta do Talibã teria para as mulheres no Afeganistão”.

O que Aisha não sabe, apesar de sua dramática história pessoal, é que a sua imagem na capa da Time está sendo usada para justificar a guerra do Afeganistão. Do lado da imagem de Aisha, a manchete diz: O que acontece se sairmos do Afeganistão.

“Eu prefiro confrontar os leitores com o tratamento de mulheres pelo Talibã do que ignorá-lo. Eu prefiro que as pessoas saibam a realidade quando formam sua opinião sobre o que os EUA e seus aliados deveriam fazer no Afeganistão”, defende o editor da Time, Rick Stengel. “A imagem é uma janela para a realidade do que acontece e do que pode acontecer, numa guerra que afeta e envolve a todos nós”, completa o editor.

O que Aisha não desconfia e Spengel esconde, é que a guerra do Afeganistão não tem a intenção primordial de defender Aisha ou de proteger a sociedade afegã da volta do Talibã ao poder. Tudo isso é uma grande encenação para justificar a submissão do Afeganistão e garantir a exploração do que está debaixo do solo, do rico solo afegão.

O relatório militar que vazou recentemente sobre a guerra no Afeganistão revela bem menos preocupação com os civis do que a Time pretende induzir com a sua comovente capa e com a terrível história de Aisha. A sistemática eliminação de civis, entre eles principalmente mulheres (como Aisha) e crianças (muitas crianças indefesas) – tudo em nome do sucesso na estratégia militar de vencer o conflito –, dá um testemunho tão condenável sobre a guerra quanto o fundamentalismo mutilante do Talibã.

Eu desejo, sinceramente, que a história de Aisha e de muitas outras mulheres pare de acontecer em todo o mundo islâmico – bem como no nosso mundo, cristão e ocidental, onde milhares de mulheres enfrentam tratamento tão violento quanto este.
Mas eu gostaria, mesmo, que os EUA parassem de mentir descaradamente sobre os reais motivos para continuarem com as suas tropas no Afeganistão. Eu gostaria, imensamente, que os EUA começassem a ser julgados num tribunal internacional por sua sistemática política belicista e atentatória contra o direito internacional e as convenções da ONU. Para começar, digo mais uma vez, que se levante o poder de veto dos EUA nas resoluções da ONU.

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