O Brasil e o flagelo da pouca leitura


No Brasil cada pessoa lê, em média, 1,3 livro(s!!!) por ano. Nos Estados Unidos 11, na França 7, na Argentina 3,2. Existem 2.980 livrarias no país, uma para cada 64 mil habitantes. Segundo a UNESCO, deveria haver pelo menos uma livraria para cada grupo de 10 mil habitantes. Há em todo o Brasil 4.763 bibliotecas, uma para cada 33 mil habitantes. Na Argentina existe uma para cada 17 mil. Em 420 cidades brasileiras não existem bibliotecas ou estão fechadas. Essas bibliotecas emprestam, em média, apenas 296 livros por dia, o que é muito pouco, e somente 29% delas tem acesso à internet. Os dados são do Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais, realizado pela Fundação Getúlio Vargas a pedido do Ministério de Cultura.

Segundo a Unesco, o Brasil tem 13,8 milhões de analfabetos. Sem contar os analfabetos funcionais, um universo que engloba 54% da população entre 15 e 64 anos que cursaram até a 4ª série do Ensino Fundamental e não são capazes de compreender textos extensos e muito menos de redigir uma carta sem graves erros de ortografia ou de sintaxe.

Entretanto, não é esse universo ainda bastante nublado da falta de formação básica que reforça as estatísticas dos baixos índices de leitura no nosso País.

O maior problema é aquele outro universo, o dos brasileiros ditos alfabetizados, que tem Ensino Fundamental completo, Ensino Médio concluído e até mesmo um curso superior ou, ainda, uma pós-graduação. Entre estes, a leitura também não é um hábito. Esconde-se ali uma multidão que perde tempo demais vendo TV, correndo atrás de pequenos modismos momentâneos ou de mais e mais dinheiro. Na verdade, quem salva a pátria de chuteiras, e garante ao menos um livro e um terço (!) na média geral, é um seleto grupo que ajuda a garantir a sobrevivência das escassas livrarias brasileiras.

O que dizer de um País em que prosperam dicas de "leitura rápida" dos grandes clássicos da literatura mundial? Como mencionar sem ruborizar que por aqui se responde com um "dei uma olhada por cima" quando se pergunta se já leu Jorge Amado? Até na Rússia o nosso maior novelista do século 20 é mais conhecido. Como explicar milhares de estudantes universitários ou "doutores" que são proprietários de bibliotecas esquálidas, compostas apenas de livros técnicos, de compra obrigatória durante o curso, e que sequer têm o hábito de ler regularmente alguma revista semanal? Como não morrer de vergonha num país em que os leitores são atacados inapelavelmente pelo sono depois de ler dez páginas?

Para mudar isso, deve-se iniciar na mais tenra idade. Não falo de crianças em idade escolar. Muito antes disso, se recomenda aos pais que leiam histórias infantis desde a primeira semana de vida do bebê. Mesmo que se tenha a impressão de total desinteresse de parte do mesmo, na verdade isso o ajuda a melhorar as conexões entre os 100 bilhões de neurônios do cérebro, o que, segundo Frei Betto, “é o mesmo que percorrer meio caminho para que, na idade adulta, ele seja capaz de construir sínteses cognitivas, sabendo relacionar as partes com o todo e fragmentar o todo em suas partes constitutivas”.

As crianças que ouvem histórias desde muito pequenas enriquecem seu vocabulário e desenvolvem a capacidade de compreensão e de aprendizagem. As pesquisas comprovam que o hábito da leitura em casa possibilita um melhor aproveitamento escolar.

“O grande perigo hoje é ver crianças e adolescentes ‘sequestrados’ intelectualmente pela hipnose televisiva de baixa qualidade ou navegando à deriva na internet. No caso da TV, o perigo de abandonar a própria imaginação em favor das fantasias projetadas na tela. Na adolescência poderão inclusive buscar suprir a carência através das drogas. O perigo de uso abusivo de internet, sobretudo quando se navega sem direção, é ser bombardeado por um fluxo de estímulos e informações sem estrutura cognitiva e moral para selecionar ou discernir. E é bom recordar que ver o que aparece na TV e no monitor do computador não equivale a ler e, muito menos, a escrever”, pondera Frei Betto.

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