O abismo do ódio que nos separa


O ódio mortal que separa o Ocidente e o Oriente por meio de um abismo cada vez mais intransponível toma proporções atemorizantes. Os muçulmanos querem ver os cristãos mortos, massacrados e exterminados. Os cristãos oram para que os muçulmanos sejam assados no inferno em fogo brando, sem direito a clemência ou compaixão. Cada vez mais gente condena os defensores dos direitos humanos por condenarem a violência inter-religiosa gratuita e por motivo torpe, uma atitude aliás cada vez mais instalada de ambos os lados e que vem construindo uma escalada inacreditável.

O atentado promovido por um suboficial do exército americano de ocupação no Afeganistão, nesta madrugada de domingo, é um lamentável exemplo dessa escalada. Sem motivo algum, apenas como válvula de escape para o gigantesco ódio contido dentro de si, alimentado por um intermitente discurso militar de transformar o outro em “Feindbild” inapelável, ele saiu pela noite matando gente. Segundo informações oficiais, dezesseis vítimas foram abatidas dentro de suas casas, no espaço mais íntimo de uma residência abastada ou humilde: o quarto de dormir.

O atentado foi motivado pela inacreditável escalada de ódio que reina no planeta, cuja principal lenha é justamente a belicosidade americana e o ódio gigantesco do islã contra os americanos. Segundo dados oficiais, 16 pessoas foram mortas pelo americano. Entre os mortos estão nove crianças e três mulheres. Todos os 16 eram civis e estavam dormindo. Além dos mortos ainda houve cinco feridos.

Os assassinatos foram cometidos de modo intencional, com requintes de crueldade, a sangue frio, como se estivesse matando um ninho de cobras venenosas. Segundo informações oficiais ainda, o soldado foi apresentado como alguém provavelmente acometido de distúrbios psicológicos. O mesmo ódio que acometeu o maluco de Oslo a matar estudantes dando como justificativa que estava fazendo uma limpeza para livrar a Noruega de gente daquela laia que fica defendendo estrangeiros e gente que merece morrer. Os mesmos distúrbios psicológicos de quem se julga no direito de condenar à morte seus desafetos, mesmo que seja em nome de um sentimento que qualifica de fé.

De nada resolvem os pedidos de desculpas do governo americano, manifestações de pesar e de estupefação do comando da OTAN ou de quem quer que seja. A escalada do ódio e da intolerância contra os muçulmanos foi diligentemente construída ao longo da última década, desde os atentados de 11 de setembro de 2001. A guerra do Afeganistão foi promovida e executada até os últimos recursos. A belicosidade agora se volta contra o Irã. A reação do suboficial foi esmeradamente construída por essa ideologia anti-islâmica. Ele só fez o que semearam nele.

Infelizmente, lamentavelmente e tristemente esse tipo de pensamento se oculta nas mentes de muitos também entre nós. Aparentemente inofensivos cristãos de nossas comunidades e igrejas ficam corados de ódio e revelam têmporas entumecidas quando falam da religião islâmica e a classificam solenemente como a religião do diabo. Seus corações estão tão dramaticamente doentes psicologicamente quanto a desse suboficial. Se tivessem oportunidade, só Deus sabe do que seriam capazes para mostrar que gente que não pensa e não age como eles merece ser extirpada da Terra.
Se nada for feito pela paz, a escalada do ódio tomará proporções ultrajantes também entre nós. Se deixarmos quieto nas nossas escolas, nos nossos meios de comunicação, nas nossas igrejas e templos, nas nossas rodas de amigos e de conversas formais ou informais, se não fizermos um gigantesco mutirão da tolerância, da aceitação do outro, do respeito pelas diferenças, vamos erguendo lentamente os muros de um beco sem saída.

Esse atentado é inaceitável. O que anda aparecendo na internet, em termos de blogs, sites, vídeos e manifestações repletas de ódio nas redes sociais é intolerável. Temos que colocar um freio em toda essa escalada de intolerância. Temos que encontrar mecanismos que revertam essa realidade e convertam os corações monstruosos para que se tornem tolerantes e pacíficos.

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