Pistômetros


Não deixa de ser curioso e eloquente ao mesmo tempo, observar o quanto os americanos usam o pistômetro na política. Em tempo: pistômetro é um instrumento imaginário que mede o índice de fé de alguém (vem do grego Pistys = fé).

Os republicanos são craques nisso. Tanto que o assunto do momento, na excitante campanha política norte-americana, não é a crise financeira, o desemprego agudo ou o decrescimento da economia americana. Eles preferem lançar dúvidas sobre a verdadeira fé do seu maior alvo, Barak Obama. O filho de um muçulmano não-praticante e de uma mãe agnóstica está na mira dos “crentes” da ultra-direita americana.

A fé sempre “brincou rolo” (tradução literal do alemão “Rolle spielen” = ter importância, espaço ou destaque) na política norte-americana, apesar de grande parte do eleitorado americano hoje se classificar como “não praticante” ou até ateu. O congresso americano é fortemente influenciado pela fé dos congressistas, que misturam sua crença em tudo o que fazem.

Numa disputa pela Casa Branca o pistômetro entra em ação. Sempre apontado para o adversário, como um radar a medir-lhe a “velocidade” da sua relação pessoal com Deus. Esse instrumento abre ou fecha as portas da governança ao postulante de mandatário número um do planeta.

Até aqui vai a minha classificação de “curioso” para este aspecto muito particular relacionado à política da (ainda) maior nação do planeta e indiscutível (ainda) líder do mundo ocidental.

A classificação de “eloquente” fica por conta do fato de que isso mostra o quanto, sem o querer e sem o admitir nem em seus piores pesadelos, os americanos se aproximam ideologicamente de seu maior inimigo, o mundo islâmico. A diferença é que o pistômetro muçulmano é classificado pelo pistômetro americano de “terrorismo, fundamentalismo ou barbárie”.

Tanto isso é assim que poucas vezes presenciei um malabarismo retórico tão descabido quanto aquele que os americanos (inclusive o seu presidente “pouco crente” Barak Obama) estão usando para justificar o massacre promovido pelo oficial americano no Afeganistão na semana passada.

Ele foi posto como uma pessoa com “problemas psicológicos”, como se a tropa toda não padecesse do mesmo mal (incontáveis casos desde os tempos do Vietnã dão trstemunho disso). Ele teve a sua privacidade invadida, justificando seu ataque como razão para os problemas que estaria vivendo no seu casamento, como se qualquer homem que tem problemas com a sua esposa pudesse se justificar caso saísse por aí dando tiros em velhos e crianças.

A verdade, que nem mesmo Obama quer admitir embora ele saiba disso, é que o exército americano inteirinho enfrenta uma diuturna lavagem cerebral que deixa muito claro qual é o seu “Feindbild” do momento. Dia e noite eles aprendem a ter ódio do seu inimigo. Dia e noite eles são treinados para matar todos aqueles que em sua retina distorcida aparecem com a cor que aprenderam a odiar mortalmente.

O maluco que saiu pela madrugada atirando em civis dormindo, invadindo seus domicílios impiedosamente, é só a ponta de um gigantesco iceberg de ódio e de fundamentalismo.

O pior de tudo é que ele é sistematicamente justificado pela fé que se baseia na Bíblia dos cristãos. O livro sagrado, que fala de paz, que tem um profeta que quer ver espadas transformadas em relhas de arado e lanças em podadeiras, é usado para antecipar o juízo final na forma de mariners atirando em “infiéis” muçulmanos idosos ou filhos de “inimigos de Deus” que poderiam, um dia, crescer e se transformar num novo Bin Laden.

E é aqui que o aspecto curioso da política norte-americana determinada por pistômetros se transforma em um perigoso combustível de uma guerra santa em pleno século 21. Se a humanidade não desengavetar o milenar discurso do profeta dos arados e podadeiras e o transformar numa bandeira válida a ser empunhada no século da razão e da ciência, vamos ter uma reedição das Cruzadas ainda antes da virada de 2050.

E esta não será uma cruzada de templários e homens abençoados pelo Papa para matar mouros em nome de Deus com espadas e lanças. Ela será a cruzada da tecnologia, movida a bombardeiros e armas ultra-modernas, mas ainda tendo o mesmo pistômetro medieval na cabeça de cada um que tem o dedo no gatilho.

À guisa de auto-avaliação, é preciso perceber que esta mesma ideologia do pistômetro está perigosamente se infiltrando na cabeça dos nossos políticos, dos nossos congressistas e dos nossos eleitores tupiniquins, que jamais perderão a incrível capacidade de imitar tudo o que vem do irmão mais poderoso do Norte do continente. Ainda veremos tempos de um inacreditável fundamentalismo religioso movendo tudo e todos neste país que, lenta porém gradualmente, deixa de ser uma nação tolerante e hospitaleira para mostrar-se cada vez mais com a cara do seu ídolo, em tudo.

Oremos pela sanidade mental da nossa nação, porque ela esta dramaticamente em perigo também.

Comentários

  1. Soube que em nosso país há 31% de evangélicos e que destes apenas 5% pertencem ao protestantismo histórico não-pentecostal, ou seja, a maioria tem um discurso fundamentalista, então é realmente preocupante o que tu colocas aí.
    Abraços! Os teus textos são muito bons - eu gosto de lê-los.
    P. Dieter

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