Briga de comadres


A incompreensível demora do governo em instalar a Comissão da Verdade, já aprovada pelo congresso há meses, está levando o julgamento da história do Brasil para as ruas e da pior forma possível. Ontem, no Rio, diante do Clube Militar, o confronto entre os que pedem justiça e os militares que defendem o regime de 64 chegou às raias da pura falta de educação.

Xingamentos, cuspidas, ofensas e um nível que beira a baixaria reinou diante do prédio em que se entrincheiravam militares em defesa deles próprios. Os manifestantes não respeitaram os entrincheirados em seu próprio território e demonstraram uma inaceitável sanha de fazer justiça pelas próprias mãos, enquanto os militares, em atitude de quem tem certeza de que jamais sentarão no banco dos réus pelos crimes cometidos durante a ditadura, zombavam das reivindicações dos manifestantes com gestos e declarações pouco condizentes com a farda que vestiam.

A culpa, no final das contas, é do governo. Falta o quê? Coragem? Determinação? Ou simplesmente vergonha na cara para enfrentar o monstro de vez? Está na hora de a comandante em chefe das forças armadas vestir as calças e começar a botar as coisas em pratos limpos.

E os militares, o que tanto temem? A insistência em não dar sinal verde para a Comissão da Verdade até parece motivada pela necessidade de quem tem, sim, muita coisa para ser ocultada. Enquanto isso, quem vai às ruas com desejo de fazer justiça sem apoio da justiça é a gurizada medonha que, outra vez, pintou a cara e foi às ruas.

Isso ainda pode ter conseqüências nada recomendáveis. Mais uma vez o Brasil perde a chance de se fazer digno do status que lhe dão no exterior...

Quando se toca nesse assunto por aqui, logo aflora uma tonelada de ressentimentos, que têm uma carapaça ideológica que nubla o céu da justiça.

Entre os militares reina um corporativismo estúpido, que defende bandidos notórios com o mesmo brio e orgulho com que se pendura medalhas no peito dos heróis nacionais. Entre as vítimas do regime e seus descendentes, na maioria, reina um oportunismo que beira a avareza, no sentido de que se entra nessa briga já de olho no tamanho das indenizações que engordarão a conta bancária.

Onde ficou a busca pela verdade, para construir um dossiê histórico honesto e robusto das mais escuras décadas da história brasileira? Esta, certamente, não será uma história que se resolverá do mesmo jeito que se soluciona uma simples briga de comadres. Até agora, entretanto, é exatamente assim que se comportam os dois lados dessa peleia...

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