Humor não é Bullying



Parece que, neste Brasil que teima em manter a truculência colonial da época da escravatura no seu comportamento medieval em relação a diversos temas, só é humor aquele que pratica bullying social. Os alvos preferidos dos nossos pouco criativos humoristas são os pobres, as mulheres, a ingenuidade das crianças, os negros, os índios, os homossexuais, as pessoas com necessidades especiais (leia-se doentes mentais, físicos etc.) e toda sorte de gente que pode ser enquadrada como imbecil.

Odeio o humor do CQC (não só do Rafinha Bastos, mas de toda a equipe, o Tas inclusive), detesto o humor patético do Casseta & Planeta e tenho verdadeiros calafrios com o humor truculento do Pânico. Ah, cabe aqui também toda sorte de programas de pegadinhas idiotas, que estão sempre ferrando pessoas desavisadas na rua, como se isso fosse engraçado. Não escapa nem mesmo uma penca de gente que se mete a fazer stand-up comedy, contando piadinhas da rotina cotidiana e fazendo as pessoas rir da própria desgraça.

Toda essa tropa de choque do humor sem-graça me faz lembrar as sacanagens infantis e as brincadeiras idiotas que alguns jovens do nosso tempo adoravam fazer nos encontros de jovens, de preferência sempre “ferrando” algum “amigo” a ponto de expô-lo ao ridículo. Fazer humor não é expor ao ridículo. Fazer humor é, sobretudo, inteligência. E essa característica está totalmente ausente do humor nacional, no momento.

Repudiando a ignóbil sequência de falta de inspiração para fazer humor de nível no Brasil, com as polêmicas recentes envolvendo Rafinha Bastos e a propaganda de lingerie com a Gisele Bünchen, posto aqui uma aula de humor. Clássico, genial e que provoca convulsões de tanto rir. Divirta-se com a genialidade, que parece ter se ausentado do meio humorístico brasileiro ultimamente. Antes, porém, leia a resenha abaixo para entender o contexto desse sketch genial, chamado “Dinner for One?”.

Na Alemanha, desde 1963, a cada ano novo é exibido na TV o filme “Dinner for One?” (Jantar para Um?), também chamado “The 90th Birthday” (O 90º Aniversário), ou “Der 90.” (O 90º). É um filme cult, produzido pela emissora alemã Norddeutscher Rundfunk (NDR), transmitido em inglês, que esboça muito bem o humor britânico. Estrelado pelos atores britânicos Freddie Frinton e May Warden, o filme se desenrola durante um jantar realizado para marcar o aniversário de 90 anos de uma anciã inglesa da alta sociedade chamada Miss Sophie, que é servido pelo seu velho mordomo, James.

Para a comemoração, Miss Sophie convida sempre os seus amigos mais próximos: Mr.Pommeroy, o Sr.Winterbottom, Sir Toby e o Almirante Von Schneider. No entanto, ao longo dos anos, os amigos foram morrendo e agora sobram apenas Miss Sophie e seu mordomo. Mesmo assim, o fiel James serve o jantar de aniversário de Miss Sophie como se seus amigos ainda estivessem presentes.

Durante o jantar, ao ser servido cada prato, é mantido um diálogo que se tornou lendário na Alemanha: James: “É o mesmo procedimento do ano passado, Miss Sophie?” Miss Sophie: “O mesmo procedimento de todos os anos, James”.

Com cada prato, James serve à Miss Sophie e seus amigos uma bebida alcoólica: Xerez, Vinho Branco, Champanhe e Vinho do Porto. Ao brindar, o mordomo faz o papel de cada um dos quatro convidados e vai tomando a bebida de seus copos. Quando chega o momento da sobremesa, ele já está completamente bêbado.

A interpretação do mordomo (Freddie Frinton) é ótima do começo ao fim e vai crescendo a cada instante, sendo que os tropeços com o tapete de tigre empalhado são emblemáticos. Uma preciosidade. Mais do que isso, uma verdadeira aula de interpretação, de comédia, de verdadeiro humor. Divirta-se.

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