Segunda-feira simbólica 2


O dia 31 de outubro é o Dia da Reforma Protestante. O evento que lançou o selo oficial da comemoração dos 500 anos da Reforma para o Brasil, que ocorreu no Hotel Plaza San Rafael em Porto Alegre no dia 18 de outubro, deu a largada num momento único. Para começar, aproximou ainda mais as duas maiores igrejas luteranas brasileiras. Elas já têm um bom histórico de cooperação, como os emocionantes encontros interluteranos, a histórica cooperação na publicação anual do devocionário Castelo Forte e a importante parceria na publicação das obras de Lutero em língua portuguesa.

As duas igrejas também são referência continental no que diz respeito à seriedade de suas casas de formação teológica, por sua contribuição acadêmica de peso e por serem cada vez mais procuradas ecumenicamente para contribuir na formação teológica de outras denominações.

Os pastores presidentes Kopereck (IELB) e Friedrich (IECLB) durante o lançamento do selo dos 500 anos.

Juntas, a IECLB e a IELB congregam em torno de um milhão de luteranos e luteranas no Brasil que, com a nova parceria em torno do selo das comemorações dos 500 anos da Reforma, dão um passo decisivo na direção de se tornarem a espinha dorsal do meio evangélico brasileiro. São uma espécie de reserva teológica de Lutero no Brasil.

Mais que uma honra, este papel traz uma imensa responsabilidade consigo. Numa realidade religiosa em que o evangelho virou “pau para toda obra” e se transformou numa espécie de manual de vantagens pessoais, com a teologia da prosperidade puxando a dianteira, os guardiães do escopo do movimento protestante da reforma não podem mais continuar assistindo a tamanha distorção do pensamento de Lutero.

IECLB e IELB precisam assumir um papel mais decisivo nesse debate e erguer suas vozes com mais coragem e em conjunto contra os shows da fé, os abusos em nome de Jesus e o enriquecimento vergonhoso de muitos que fundam igrejas somente para explorar a fé do povo simples. Estamos de volta ao tempo das indulgências, desta vez sob os auspícios dos que se dizem evangélicos. Não é mais possível continuar tolerando que o evangelho, tão amado por Lutero, continue a ser usado na prática do estelionato explícito e descarado.

Para assumirem esse papel em conjunto, IECLB e IELB precisam aprofundar os seus laços. Não é mais racional que continuem apenas se tolerando, preocupadas em defender suas trincheiras paroquiais ou que se digladiem para ver qual das duas cuida melhor do legado do Reformador. Diante da briga de foice no escuro que é o predatório mercado da fé no Brasil de hoje, não tem outra opção: IECLB e IELB só têm uma chance juntas. Separadas, elas irão devorar-se mutuamente e, pelos fundos, sangrar indefinidamente, num doloroso processo de perda de membros e de espaço.

É importante comemorar os 500 anos da Reforma também no Brasil. Mas o meu desejo é que o selo comum una a IECLB e a IELB para muito além das conveniências dos eventos celebrativos. Que até 2017 apareça um projeto consistente e duradouro que, finalmente, nos una. As duas irmãs que apenas se toleram (e fazem churrasco juntas quando o pai completa anos) precisam unir-se para que não sejam engolidas pela avalanche pentecostal.

E por falar em churrasco em família, se até 2017 IECLB e IELB fossem finalmente capazes de partilhar do mesmo pão e do mesmo vinho, lançariam um marco ecumênico insuperável, dando-lhes moral única para assumir de fato o papel de guardiães do legado da Reforma no Brasil. Enquanto este gesto concreto de fraternidade autêntica entre as duas irmãs luteranas não acontecer, todo discurso será pálido, desbotado e com aspecto de falácia sem muito estofo.

Comentários

  1. Muito bom Clóvis. Dá o que pensar. Para aprofundar-se laços "navegar em águas de diálogos verdadeiros" é preciso. Obrigado!

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  2. Muito bem. Parabéns.
    Por enquanto é um sonho de poucos.
    Vamos buscar mais pessoas, de ambos os lados, para sonharem conosco.
    2017 é logo ali.

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  3. obrigado por essa sua manifestação em relação ao que deveria ir além do churrasco [requentado!] entre IELB e IECLB. Obrigado pela ousadia! Infelizmente, pelos passos que tenho acompanhado até aqui, acho que vamos comer o requentado por muuuuuuuuuuuuuuito tempo. Mas, como o Espírito sopra solto, apesar das igrejas, não se pode duvidar.

    Aliás, li de novo o seu texto sobre homolegalidade. Bom também. Continue assim.

    Abraço,
    Romeu

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  4. Respeito sua opinião, mas acho que o limite de integração das duas igrejas é o atual. A IECLB tem um número muito grande de pessoas ligadas a teologias da libertação e liberal, ordena mulheres e pratica um ecumenismo exagerado. São coisas que a nós da IELB nunca concordaremos, apesar de respeitar o direito dos membros da IECLB de terem sua prática. Cada um no seu quadrado.

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