Segunda-feira simbólica 3


O terceiro assunto para este dia especial de 31 de outubro – além da marca dos 7 bilhões de seres humanos atingida hoje e do dia da Reforma Protestante – é o do entrementes famoso Halloween.

Há diversas provas de que somos eternos macacos imitadores dos americanos. Um exemplo é o dessa festa ridícula, que não tem nada a ver conosco, com as nossas tradições e com a nossa origem. Culturalmente dominados, ouvimos música americana e cantamos junto, pronunciando palavras que sequer entendemos; enchemos nossas ruas e revistas de anúncios em inglês e nomes de lojas americanizados; não fazemos liquidação, mas vendemos “30% off”; mesmo tendo visto o filme das grandes lojas de departamentos americanas falindo e virando ruínas, instalamos as nossas com fé de que sabemos fazer melhor; compramos SUVs depois que elas saíram da moda nos EUA, e por aí vai.

E o Halloween, o que é? É o dia dedicado a espantar as bruxas nos EUA, com as crianças pedindo doces para não praticarem vandalismo. Trata-se de uma milenar festa originária na Irlanda, do início do século 19, na qual são cultuadas velhas lendas de origem pagã sobre os mortos e sobre como driblar a força oculta do mal sobre as nossas vidas. Nos EUA hoje em dia, virou mais um dia para vender muito, como o dia dos pais e das mães, o Dia de Ação de Graças (Thanksgiving Day) e o Natal.

O que ela significa no Brasil? Bem, sinceramente, absolutamente nada. Virou moda, que agora é freneticamente macaqueada até nas nossas escolas da Rede Sinodal de Educação. A justificativa? “As crianças gostam”. Com tanta tradição cultural linda, por que se macaqueia justamente uma tradição de origem inglesa, celta? Eu arrisco dizer que a maioria dos nossos professores mal sabe quem foram os celtas.

As origens da nossa cultura, tão maravilhosamente resgatada por Monteiro Lobado e Maurício de Souza, por exemplo, são indígenas. Os seus mitos são seres da floresta. Mas isso é feio, causa vergonha, nos torna “gente atrasada”, como os indígenas. O Saci Pererê, a Cuca, o Curupira, a Mula-Sem-Cabeça, o Boitatá, o Boto Cor-de-rosa... e tantos outros; esses são os nossos mitos, a nossa cultura. Que coisa mais linda o símbolo do barrete vermelho na cabeça do Saci! Ele representa a liberdade, que só um ser da floresta pode representar. Nada de medo dos mortos, de ter que espantar o diabo... Tão sapeca quanto as crianças podem ser, o Saci é livre, feliz, protetor das florestas.

Bem que as nossas escolas podiam adotar o dia 31 de outubro (já que em algumas até o Dia da Reforma passou a ser um incômodo feriado, que prejudica o cumprimento do currículo escolar!) para seguir uma proposta oriunda de diversos movimentos culturais: em vez de Halloween, celebrar o Dia do Saci.

Segundo a jornalista e militante cultural da Ilha, Elaine Tavares, em Florianópolis o Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC já lutou por esta data, fazendo os nossos mitos invadirem as ruas e valorizando o que é nosso; não para pedir guloseimas, mas para celebrar o que é brasileiro legítimo. É um movimento que valeria a pena resgatar. Simplesmente porque, na minha humilde opinião, macaquear os outros é coisa de macaco. E, se é para representar um ser da floresta, que seja um Saci...

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