Nosso legado na web

Na semana em que lembramos os 20 anos da criação da web – ainda vou me referir a essa história no final de semana –, encontrei um texto de Sumit Paul-Choudhury (New Scientist). Ele reflete sobre a preocupação crescente com o gigantesco rastro digital que estamos deixando na internet. Trata-se de um inesgotável baú de pesquisa histórica para as futuras gerações. Será que pode simplesmente ser apagado?

“Com a popularização das redes sociais, cada vez mais detalhes do nosso dia a dia ficam registrados no ciberespaço. São informações variadas: desde um rápido registro no Twitter sobre o cardápio do almoço até uma foto postada no Facebook depois daquela animada noitada”, escreve o jornalista.

Na visão de Sumit, esses dados mostram quem somos e deixam o nosso rastro na internet, como uma “alma digital”, que permanece inclusive depois da nossa morte física. E a morte levará só neste ano 250 mil usuários do Facebook, por exemplo. “Muita gente ainda não se deu conta, mas somos a primeira geração a criar um vasto legado digital. E nem todo mundo sabe ao certo como lidar com ele”, pontua Sumit.

As opiniões sobre o que fazer com os perfis de toda essa “nação digital” dividem-se. Os “preservacionistas” querem preservar tais arquivos para os descendentes, mas têm a oposição dos “deletionistas”, que defendem que a internet precisa aprender a esquecer. Jason Scott, cineasta americano, é um preservacionista que tentou salvar informações do Geocities, um serviço criado em 1994 que permitia que qualquer pessoa criasse uma página na internet, na época com cara de coisa de amador. O Geocities foi abandonado pelos usuários em função de plataformas mais modernas e, em 2009, depois de mais de uma década de negligência, o Yahoo! decidiu acabar com os arquivos. Scott e outros resgataram o que puderam das páginas do Geocities e criaram um arquivo de 641 GB que circulou em redes de troca de arquivos antes de ser republicado no endereço reocities.com.

Para Scott, trata-se de uma parte da história que poderá ser estudada por sociólogos, arqueólogos e antropólogos. “O Geocities é uma cápsula do tempo gigantesca que mostra a infância da web”, defende. Isso abre importantes precedentes para outros casos, como da IBM, da Microsoft e do Orkut, que já foram considerados os maiorais e agora estão meio largados.

Hoje, o Facebook fornece serviços gratuitos e armazenamento em troca da venda de publicidade usando as informações pessoais fornecidas no cadastro. Um dia, seus fundadores podem encontrar novas maneiras de ganhar dinheiro e optar por deletar suas fotos pessoais.

O problema é que estamos produzindo mais memória do que podemos lidar. E as consequências de lembrarmos tudo o tempo todo podem ser desastrosas. Momentos ruins, como o fim de um relacionamento ou condenações criminais podem aparecer num momento não muito apropriado e, nesse caso, descobrimos que é difícil perdoar quando você não pode mais esquecer.

“Se não podemos apagar os dados, podemos escondê-los”, defende Sumit. “Em fevereiro, depois de várias reclamações para a agência de proteção de dados da Espanha, um tribunal determinou que o Google removesse 100 links de sua base de dados por conter artigos de jornais e registros públicos desatualizados. O Google se recusou a obedecer, mas o ‘direito de ser esquecido’ está definido como meta na estratégia de proteção dos dados da União Europeia de 2011”, aponta.

A verdade é que a internet retrata a espécie humana como nunca antes na história. E isso é um interessante registro único do nosso tempo. Mas pode ser também um problema, especialmente para os vivos que buscam um emprego ou almejam subir de posto ou ganhar importância em todos os setores da sociedade.

Por isso, todo cuidado é pouco na hora de disponibilizar informações pessoais na rede. O pouco que tenho sobre mim aí do lado, no meu perfil, já é o bastante (e pode até ser demais para muitas pessoas que constroem totens de determinadas pessoas, como de um pastor, por exemplo). Gosto da reserva de um amigo meu, no seu perfil: “The first rule about fight club is you do not talk about fight club” (A primeira regra do clube de lutas é que você não diga nada sobre o clube de lutas). Acho que ele tem toda razão. Manter privacidade é importante. Também na internet precisamos afixar placas do tipo “não entre sem ser convidado”.

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