Dia mundial sem carros


O dia de hoje, 22 de setembro, é declarado solenemente o “Dia Mundial Sem Carro”. Na mesma data, também solenemente, a indústria automobilística mundial participa, ávida para atender as demandas por novidades, da feira internacional do automóvel de Frankfurt.

É uma gritante contradição. Ela se aprofunda mais ainda quando constatamos que, num esforço enorme para vencer a indiferença e até certa má vontade, a indústria automobilística enche os estandes de Frankfurt de novidades na área dos carros alternativos, movidos a energias mais “simpáticas” ao meio ambiente. Falam de “emissão zero”, mas seus protótipos nunca sairão dos laboratórios. São novidades para inglês ver.

São novidades para as quais apreciadores dos carros ainda torcem solenemente seus narizes. Eles querem ouvir o ronco do motor a explosão, movido a petróleo, com um razoável número de cilindros produzindo o que alguns chamam de música. Seus ávidos olhares não querem as novidades da turma da “emissão zero”. Eles se voltam para os estandes da Ferrari, da Aston Martin, da Audi, da Alfa Romeo, da BMW. É de lá que vêm as “cantatas” sonoras que apreciam. Eles querem bólidos, não carrinhos elétricos. Apreciam-nos mais ainda em movimento do que parados num mostruário.

No meio desse frenesi quase erótico de Frankfurt, o dia mundial sem carro é uma proposta interessante, mas que ainda não chega a comover muita gente. Opções não faltam, como a bicicleta, andar a pé, usar o transporte público ou a carona solidária. Mesmo assim, especialmente nas grandes cidades, fica difícil deixar o carro na garagem.

A data de hoje, criada em 1997 por cidades da Europa, propõe uma reflexão global sobre o uso do automóvel como meio de locomoção e expressa o compromiso da sociedade com uma melhor qualidade ambiental, mediante a redução da emissão de CO2 (dióxido de carbono). Cidades no mundo inteiro estão programando atividades para marcar a data. Em muitos lugares, entretanto, a adesão ainda será tão insignificante que passará despercebida.

Além dessa ação, que por certo ajuda a conscientizar todos nós da necessidade de mudança urgente de hábitos, outras ações devem ter mais atenção. O transporte público ainda é precário na maioria das nossas cidades. É sucateado, não cumpre horários, vive entupido de gente, custa caro e trata mal o usuário. O pior de tudo, não está integrado em muitos lugares e se perde tempo demais para chegar a uma rede ou para fazer a conexão entre diferentes redes ou tipos de transporte. Faltam políticas públicas bem-planejadas e vontade política para que as coisas realmente mudem no setor. A própria imprensa continua voltando todos os holofotes para Frankfurt, quando deveria incentivar mais feiras de tecnologias na área do transporte público (alguém visitou alguma feira do gênero recentemente?).

Mas também, dou um doce para quem disser sem pestanejar quais são os principais anunciantes de jornais, revistas, internet, telefonia móvel, rádio e TV...

Acertou! Então, escolha o seu doce aqui.

Enquanto você se delicia, vamos firmes na direção do abismo... muitos dirigindo seus reluzentes bólidos movidos a petróleo...

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