Os fundamentalismos do 11.09


Os dez anos de 11 de setembro, além de remeter ao mais vil ato de terrorismo da história, com consequências sequer imaginadas pelos seus executores, levanta uma série de questões de extrema importância para reflexão.

Antes de qualquer coisa, é fundamental reconhecer que o povo americano tem toda razão em sua comoção, em homenagear as vítimas dos quatro aviões covardemente utilizados pelos suicidas que os derrubaram, em criar um Marco Zero para que jamais se esqueça o lugar em que se erguiam as Torres Gêmeas e, também, em homenagear os milhares de mortos dentro das torres e no Pentágono, bem como as centenas de heróis bombeiros que morreram para salvar quem pudessem, naquele dia fatídico. Também a comoção e o medo de novos atentados, vividos pela nação americana nesta primeira década depois do atentado, são plenamente justificados. O mundo mudou, terrivelmente, e para pior, depois daquele dia de céu azul-anil na maior cidade do continente americano. Por isso, à semelhança das dramáticas imagens que nos mostram insistentemente sobre a 2ª Guerra Mundial, nenhuma das cenas de 11 de setembro devem ser esquecidas ou minimizadas.

Entretanto, quanto mais o tempo passa depois daquele dia, mais se evidencia que o fundamentalismo que o provocou não está somente de um lado. O país que se considera uma terrível vítima de 11 de setembro de 2001, é, também, algoz. E sua fúria mede-se com a mesma escala fundamentalista com que eles próprios medem seus inimigos. Aliás, toda a belicosidade americana está solidamente fundamentada sobre conteúdo bíblico. A sua política, a sua economia, a sua sociedade e até mesmo alguns setores da sua ciência estão contaminados por uma interpretação extremista do texto sagrado dos cristãos. Nesse quesito, não há diferença alguma entre essa visão e a dos muçulmanos fundamentalistas em relação ao Alcorão.

Isso por si só não surpreende. O pensamento fundamentalista faz e desfaz presidentes, o Congresso, juízes e todas as grandes lideranças da nação em que todo o movimento pentecostal se criou, à luz de pregadores como Billy Graham, Jimmy Sweggart e muitos outros. A própria crise do governo Obama é cozida nesse caldo politico-religioso tipicamente americano. O proprium americano é de considerar-se acima do bem e do mal, com legado do próprio Senhor para bem-administrar o planeta enquanto o Reino não for instalado definitivamente, obviamente, desde que Jesus Cristo reserve aos americanos um privilegiado lugar no governo do seu Reino, com direito a veto e tudo. É, também aqui, um apoio que não tem a generosidade da ausência de interesse. Tudo é calculado, mesmo que escatologicamente.

Tanto isso é assim, que a poderosa indústria do aço americana foi erguida sobre uma empresa com o sugestivo nome de Betlehem Steel, cujo objetivo original era fundir sinos para as igrejas batistas. Mas não é somente a siderurgia americana que carrega o legado da Betlehem Steel. As letras BS estão gravadas em relevo em cada canhão que expele mísseis e balas em todas as guerras nas quais os americanos se metem. Ou seja, em plena era do ecumenismo pós-guerra, na qual amplos setores da Cristandade clamam por paz, os americanos estão vivendo fervorosamente no tempo das Cruzadas, julgando com isso estar cumprindo a vontade de Deus. Que Deus nos livre de todo tipo de fundamentalismo. Esta é a minha mais fervorosa oração.

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