Voto feminino para inglês ver


Definitivamente, vivemos num mundo do faz-de-conta. Quando se quer dar uma determinada impressão, vale até simular, disfarçar, mentir abertamente ou simplesmente manter as aparências.

A tática foi usada no início desta semana pelo ancião que reina todo-poderoso sobre a Arábia Saudita. Abdullah Bin Abd AL-Asis, 87 anos, num ato surpreendente e que foi notícia em todos os recantos do planeta, autorizou as mulheres a exercer pela primeira vez seu direito de voto e de candidatura numa eleição no país.

Alguns festejaram. Infelizmente, crendo tratar-se de uma abertura real. Mas, em lugar de ser um reconhecimento tardio de um direito há muito conquistado pelas mulheres no ocidente, o ato do rei saudita não passa de uma esperteza política. Afinal, a monarquia saudita sempre primou pelo forte conservadorismo islâmico ao longo de seus 80 anos de existência.

Não seria agora, em plena ventania democratizante do chifre africano, que a abertura chegaria com força ao regime. E as mulheres foram, até aqui, as principais vítimas da ausência absoluta de direitos no estado islâmico de Abdullah. E também o direitozinho que agora foi concedido a elas não vai mudar nada nessa situação em particular. Elas, apesar de poder votar, ainda precisam da autorização de um homem da família para trabalhar ou dirigir automóveis.

Todas as promessas de reforma do rei Abdullah, que deveriam garantir maior participação popular na vida política do país, reduziram-se a mudanças irrisórias, apenas para polir um pouco a imagem da Arábia Saudita no ocidente e para reduzir descontentamentos internos e evitar cair na reação em cadeia da região dos países árabes. Afinal, a coroa saudita reagiu de forma agressiva e utilizando seus velhos métodos para combater a onda que ameaçava chegar também às portas do seu palácio. Suas forças até ajudaram a combater os levantes no Bahrein. Internamente, protestos e demonstrações contra o rei foram consideradas anti-islâmicos.

Para as mulheres sauditas, agora com direito a voto, há pouco a comemorar. Se uma delas for eleita para o parlamento, terá que ter a autorização de um homem da família para dirigir seu carro até a casa do povo. Pouquíssimo a comemorar, portanto.

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